Que história é essa de ATELIÊ VOLANTE ?

Ao longo dos muitos anos em que levei turmas de alunos para desenhar nas praças da cidade, invariavelmente, crianças e adolescentes paravam para olhar, curiosas, comparando o desenho com o que estava sendo desenhado. Quando comecei a levar material e oferecer para que se juntassem à turma, ficou evidente a dimensão social do desenho.

No Rio de Janeiro, onde vizinhos de morros e bairros da cidade vivem uma segregação social imposta desde cedo, a imagem de crianças desenhando juntas em praças públicas estimulou a criação do Ateliê Volante: um ateliê montado em um triciclo de carga para oferecer cursos de desenho livre – abertos e gratuitos – para crianças e adolescentes nas praças da cidade.

Com o aval da prefeitura, o projeto foi aprovado pela Lei Rouanet, e logo adaptado por uma produtora para a inscrição num grande edital de patrocínio da Petrobrás. Selecionado como finalista, a exigência de revisão orçamentária questionava justamente os custos de administração da produtora. Mas foi o seu objetivo principal que encontrou maior resistência por parte de possíveis patrocinadores. O dono de uma grande construtora carioca afirmou claramente que juntar crianças ricas e pobres não poderia dar certo.

Tudo indicava que, se o Ateliê Volante contemplasse apenas crianças carentes, seria mais fácil a sua aceitação como projeto social e a consequente captação de recursos. Acontece que, além de já existirem projetos de arte para crianças nas comunidades da cidade, o enfoque social da proposta era outro. E a eventual cobrança dos que pudessem pagar, dificultaria a adesão destes, e reproduziria a diferenciação socioeconômica na turma.

Sem recursos, a necessidade de reduzir os custos dos materiais levou à busca de alternativas viáveis. Assim, foram elaborados bonés, pranchetas, pastas, almofadas e estojos feitos de papel e papelão reciclado. No processo, vieram outros acessórios, brinquedos e móveis de papelão e materiais descartados, junto com a ideia de ampliar a produção para a venda e, assim, poder financiar os cursos.

O nome Papel Inverso serviu para marcar essa série de peças, cuja fabricação foi organizada em uma linha de produção adaptável para ser automatizada ou artesanal. Contando com o auxílio de um jovem aprendiz, em meio período, produzimos trezentas peças em duas semanas (algumas com arte do próprio).

O Ateliê Volante foi ampliado então para um programa de dois ciclos complementares: o primeiro, de cursos de desenho para crianças e adolescentes; e o segundo, de treinamento profissional para jovens aprendizes em artes gráficas, reciclagem e desenho sustentável. Neste caso, voltado para moradores de comunidades de baixa renda, onde há uma imensa carência de formação para o mercado de trabalho.

Desenho sustentável caracteriza assim o design das peças (seus materiais e processos de produção), a complementaridade do ciclo (da educação visual à criação de peças originais), e a vocação para a autossustentabilidade do programa.

Adaptado como quiosque, o triciclo amarelo do Ateliê Volante participou de exposições e eventos funcionando como uma estação gráfica 2D–3D, onde as peças podiam ser personalizadas. Inscrito na Maratona de Negócios Sociais do Sebrae, o Ateliê Volante ficou outra vez entre os finalistas. E de novo encontrou resistência quanto aos cursos gratuitos; agora porque significava um gasto sem retorno, que ameaçava a viabilidade do negócio.

Motivos de força maior impuseram uma suspensão das atividades do Ateliê por um longo período.

Na retomada, o Ateliê Volante foi selecionado para participar do Laboratório de Inovação Cidadã, da Escola de Comunicação da UFRJ – um programa multidisciplinar de articulação entre a Universidade e iniciativas sociais. Ao longo do ano, formamos parcerias com alguns projetos admiráveis, entre os quais o da Casa da Dona Amélia, na Cidade de Deus.

Em 2020, em parceria com o Pontão da Eco, o Ateliê Volante se tornou uma atividade de extensão da UFRJ, passando a contar com a participação de alunos de graduação de diversos cursos de graduação – Jornalismo, Rádio e TV, Desenho Industrial, Administração.

Com a disseminação da Covid-19 e a suspensão de encontros presenciais, preparamo-nos então para a retomada das atividades, logo que possível.

< (VOLTAR)   (ATELIÊ VOLANTE) >